sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Guarani-Kaiowá: Indígenas idosos denunciam que foram vítima de trabalho escravo nas fazendas e exigem reparação


Esta carta/nota da Aty Guasu é para Governo, Justiça Federal e para várias comissões criadas para discutir a indenização e a devolução dos territórios antigos Guarani e Kaiowá:

Essa nota visa apresentar os depoimentos de Guarani e Kaiowá idosos escravizados pelos fazendeiros do cone sul de MS. Dessa forma, nós Aty Guasu, em primeiro lugar, passamos a demandar uma indenização e política pública de reparação para o povo Guarani e Kaiowá sofrida e expulsada de seus territórios antigos.
Sabemos e acompanhamos que nos últimos dois anos, já há várias comissões criadas, tais como: Comissão de CNJ, etc, cada semana está sendo criada mais uma “comissão”, mas nenhuma comissão não discutiu seriamente a devolução de territórios indígenas e indenização para Guarani e Kaiowá expulsos de suas terras antigas. Por isso, nós da Aty Guasu, vimos encaminhar ao Governo e Justiça Federal a justificativa de indenização e política de reparação para sobreviventes Guarani e Kaiowá sofridos, localizadas no cone sul de Mato Grosso do Sul.
Em primeiro lugar, como já é sabido, que desde 1950 até 1980, vários homens indígenas (Guarani e Kaiowá) foram escravizados pelos fazendeiros para fazer a derrubada de mato, no atual cone sul de MS. As atividades desses indígenas eram derrubar o mato com as ferramentas manuais, tais como: facão, foice, machado e enxada. Duração desse trabalho degradante eram 14 horas por dia. Conforme idosos Guarani e Kaiwá revelam:
“Nós começávamos a corta o mato com foice e machado, ante de sol nascer e parávamos após por do sol. Só parávamos mais ou menos 20 minutos para comer”. Dormíamos só um pouquinho, de madrugada, por volta da 4 horas, os capatá-ficale começavam lançar os tiros para nós acordar. “O patron-fazendeiro mandou três “capatá-ficale” com a arma de fogo para nos vigiar, esses homens brancos armados iam até a nossa casa para buscar nós a força para derrubar o mato, era assim, na derrubada de mato, dessa forma, nós indígenas éramos tratados na época de derrubada de mato.”
Fica evidente que mais de três (03) homens não índios-pistoleiros “brancos” com mão armada vigiavam diariamente os trabalhos e as casas dos indígenas. Além disso, os homens Guarani e Kaiowá não recebiam nenhum salário/remuneração por essa atividade pesada e degradante. Memória de idosos Guarani e Kaiowá, localizados nas áreas em conflitos.
“Em troca de nosso trabalho, patron-fazendeiro mandava para nós só facão, foice, machado e algum pano. Falava para nós: – vocês têm que trabalhar a muito tempo e derrubar muito mato para pagar o preço de facão, foice e pedaço de pano. Dinheiro não!, nós não recebíamos dinheiros não”. “Além 
disso, patron-fazendeiro anunciava: se vocês índios se quiser ficar na minha nova fazenda tem que trabalhar para mim”
Esses homens indígenas Guarani e Kaiowá trabalharam de modo escravizado somente para não abandonar ou sair de seu território antigo. Os idosos indígenas relembram do fato de modo unânimes.
“Nós obedecíamos tudo a ordem do patron-fazendeiro para não abandonar os nossos territórios antigos. Trabalhávamos duramente na derrubada de mato era para permanecer em nosso território, assim conseguimos ainda ficar por muito anos em nosso território. Mas no final da derrubada de mato, em meado da década de 1970, fomos expulsos e dispersos de nossos territórios antigos, todas nossas expulsões ocorreram com as violências. Fomos jogados nas reservas e nas margens da estradas onde estamos, até hoje, morrendo e sofrendo.
Importa destacar que a maioria dos idosos Guarani e Kaiowá que trabalhou na derrubada de mato está ainda com vida e está no acampamento em conflito no cone sul de MS. Diante dessas narrações de todos os idosos Guarani e Kaiowá, nós lideranças da Aty Guasu solicitamos, com urgência, as indenizações de reparações para comunidades Guarani e Kaiowá expulsas de seus territórios. Assim, essa indenização tem que apresentar uma medida compensatória por trabalho escravo, danos morais e materiais sofridos pela comunidade, expulsa de seu território tradicional no processo de criação das fazendas sobre os territórios indígenas, no cone sul de MS.

Atenciosamente,
Tekoha Guasu, 15 de novembro de 2012.
Lideranças da Aty Guasu Guarani e Kaiowá-contra genocídio.

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